Texto assinado por  Lucilene Danciguer, diretora do Colabora Moda, e por Raquel Chamis, cofundadora da Cora Design e membro do Conselho Consultivo do Colabora Moda.

 

2021-2030 é um período decisivo para a sobrevivência das pessoas no planeta. Como podemos criar caminhos para uma moda regenerativa? 

A sustentabilidade está no nosso nome e na razão de existir do Colabora Moda Sustentável. Sabemos da importância desse conceito – e, mais ainda, das práticas que o acompanham – no sentido de manter o planeta como casa para as gerações futuras. Nem o uso da palavra “sustentável” de forma indevida por inúmeras marcas nos fez abrir mão dela, que, por aqui, refere-se ao que sustentamos. Mais especificamente, à moda que queremos sustentar.   

Por outro lado, sabemos também que a continuidade do sistema econômico vigente nos colocará (nós, humanidade) diante de um final nada feliz. Quando o que se está sustentando é uma lógica econômica que trata a natureza como mera fonte de recursos – praticamente um supermercado de matéria-prima e energia –, então sabemos que a sustentabilidade como manutenção não será suficiente para impedir a crise climática que enfrentamos. 

O conceito de regeneração tem entre seus principais estudiosos o biólogo Daniel Christian Wahl, que diz que a regeneração é um redesenho da forma como vivemos até aqui (capitalista, industrial, linear) . Também defende que há muito a se aprender com os povos originários e com os saberes regionais, mais do que na busca por uma solução única e global. O autor – que em 2020 lançou uma de suas principais obras em português – assim explica as culturas regenerativas:  

“Uma cultura humana regenerativa é saudável, resiliente e adaptável; cuida do planeta e da vida com a consciência de que esta é a maneira mais eficaz de criar um futuro próspero para toda a humanidade. O conceito de resiliência está intimamente relacionado à saúde, descreve a capacidade de recuperar funções vitais básicas e de reação a qualquer tipo de colapso temporário ou crise. Quando almejamos a sustentabilidade a partir de uma perspectiva sistémica, tentamos sustentar o padrão que conecta e fortalece todo o sistema. A sustentabilidade trata, antes de tudo, de saúde e resiliência sistémicas em diferentes escalas, desde a local até à regional e à global.”.

 

2021-2030, a Década da Restauração dos Ecossistemas

Há algum tempo, simplesmente não aumentar o grau de destruição era suficiente para salvar o futuro. Hoje, estamos no início da década considerada o período-limite para reverter as mudanças climáticas e regenerar os ecossistemas degradados. O chamado para a proteção foi feito pela Assembleia Geral da ONU ainda no ano de 2019, e agora ganha força entre lideranças políticas, das ciências, das comunidades, da religião e da cultura. 

Recuperar milhões de hectares de ecossistemas ao redor do mundo é o desafio liderada pelo Programa da ONU para o Meio Ambiente (PNUMA) e pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO). A recuperação é uma virada global necessária para que o planeta volte a ser saudável para todas as formas de vida. E vai na contramão de práticas que envolvem o uso de combustíveis fósseis e altíssimos níveis de consumismo (que, aliás, a moda tanto estimulou). 

A Década tem como objetivo inspirar e apoiar governos, organizações multilaterais, sociedade civil, empresas do setor privado, jovens, grupos de mulheres, povos indígenas, agricultores, comunidades locais e indivíduos em todo o mundo, para colaborar, desenvolver e catalisar iniciativas de restauração em todo o mundo. 

 

Mudanças radicais, benefícios perceptíveis 

Voltar o poder de ação da humanidade para apoiar a restauração de ecossistemas traz de imediato uma lista de benefícios – e eles incluem a melhoria da qualidade do ar que respiramos, da água que bebemos e da fertilidade do solo. Mas regenerar a natureza também impacta na economia e na vida das comunidades de forma profunda. Destacamos alguns dos muitos outros benefícios publicados pelo WRI (vale a leitura do artigo aqui). 

  • retira carbono da atmosfera; 
  • diminui os gastos com tratamentos químicos da água, a ponto de os investimentos em restaurações já estarem sendo considerados infraestrutura natural; 
  • aumenta a resiliência do campo e da cidade; 
  • é uma estratégia crucial para gerar empregos e renda no campo. Uma estimativa do Planaveg mostra que a restauração e o reflorestamento têm potencial de criar 191 mil empregos diretos no meio rural por ano.  

Para quem questiona a viabilidade de uma ação em espaço de tempo relativamente curto – uma década, de 2021 a 2030 –, é bom lembrar os momentos iniciais (e mais restritivos) de reação à pandemia do Coronavírus. No parar das máquinas, a natureza reagiu recuperando espaços de vida. Veneza viu suas águas novamente translúcidas, com a presença de animais aquáticos. São Paulo respirou ar limpo nos dias em que os carros deixaram de transitar. São apenas dois exemplos dos muitos que servem de reforço para que sigamos lutando por nosso planeta e nossa sobrevivência. Mas que também lembram: não é mais possível fazer mudanças que ficam apenas na superfície.

 

Mas e a moda brasileira? 

Para nós, regenerar a moda significa buscar novas formas de fazer e usar nossas roupas, deixando para trás a linearidade e usando nossa inteligência e força de trabalho a serviço de outro mundo. Há possibilidades em cada processo, começando pelo design de produtos e de negócios, passando pela escolha das matérias-primas, chegando à circularidade em cada uma das partes (em outras palavras: o que fazer no final do ciclo de uso em cada produto e seus componentes).

Mas, especialmente, há caminhos para a regeneração quando pensamos na moda para além dos produtos. Como um ecossistema que também pode oferecer cuidado, proteção e expressão identitária e cultural. A moda regenerativa tem equidade de gênero e raça, bem como a distribuição do valor ao longo da cadeia produtiva. É a serviço dessa mudança que queremos inovar.

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Para aprofundar as possibilidades de regeneração da moda, reforçamos o convite para o Encontro Colabora Moda 2021! Serão três dias de atividades gratuitas sobre o futuro da moda no Brasil  como força regenerativa na construção de alternativas. O evento acontece com palestras abertas ao público e atividades exclusivas aos membros do Colabora Moda Sustentável. 

 

Serviço:
Dias 15, 22 e 30 de setembro.
Das 9h às 11h – webinários com palestras e painéis gratuitos e abertos.
Das 11h às 12h30 – atividades exclusivas para membros do Colabora Moda Sustentável.

Inscreva-se agora no bit.ly/EventosColaboraModa.
Saiba mais sobre a programação na página do evento: bit.ly/EncontroColaboraModa2021